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terça-feira, 17 de março de 2015

O Quinze


Fernando Gabeira*
Tranquilo como a manhã de domingo. Cantávamos isso nos anos 1980. Espero que todo dia de domingo seja tranquilo. No domingo passado, lia revistas quando ouvi panelaços e gritos de “fora Dilma”. Não sabia que ela apareceu na tevê. Pensei: esses caras estão errando de domingo, o protesto é dia 15. Rapidamente, percebi que era manifestação espontânea da elite branca, como diz o PT. Em Ipanema, com tanto sol, a elite é morena, mas bateu panelas com a mesma intensidade.

O problema das manifestações de hoje não é a leveza do domingo, nem mesmo ter números expressivos. O problema, como em 2013, é evitar a violência e isolar os desordeiros, que se aparecerem agora serão, claramente, uma força auxiliar do governo.

Muita gente pede o impeachment de Dilma. Dizem que é golpismo. Não é. Está previsto em lei e passa por um ritual democrático: existem razões concretas? E por uma reflexão política: se cai o presidente, o que virá depois? Vivemos a mais complexa crise dos últimos 30 anos. Não vejo capacidade em Dilma para liderar o país na sua retomada. Nem vejo o PT com instrumentos para entender a realidade.

Conheço as lentes ideológicas. Elas se tornam mais poderosas quando está em jogo o próprio emprego. O PT tende a afirmar que os protestos vêm dos ricos. Tudo o que vem dos ricos é suspeito, logo deve ser rejeitado pelos pobres. Com o tempo, vão se assustar com o número de ricos no país, ou, finalmente, admitir que rejeição ao PT é um fato nacional. Os intelectuais acham que há um ódio contra o PT. Não se perguntam nunca se o partido fez alguma coisa errada. Pelo contrário, criam a seguinte imagem: os ricos nos odeiam porque os pobres passaram a consumir, frequentar universidades e viajar de avião.

De todos os processos mentais, um dos mais eficazes é esse: localizar uma virtude, no caso a distribuição de renda, e atribuir a ela as razões do ódio ao PT, suprimindo nesse processo mágico a roubalheira, o cinismo e a incompetência. Presidente incapaz, partido corrompido até a medula não têm condições de conduzir o país para fora do buraco em que nos meteram.

As manifestações de hoje não vão resolver sozinhas esta parada. Mas podem discutir direções. Impeachment, renúncia? Os tucanos não gostam de saídas conflitivas. Querem que Dilma sangre quatro anos. Pra que tanto sangue, meu Deus? Se os tucanos querem isso, imaginem os vampiros.

Os meandros da política tendem a desidratar os pedidos de impeachment. Em muitos lugares do mundo o povo dispensou a oposição e os políticos nesta fase. Ao invés de impeachment, que passa por um rosários de crivos necessários, simplesmente adotou “o pede para sair”.

Por mais profunda que seja a crise, agarrado aos cargos e ao poder, o PT jamais aceitaria uma renúncia. E que valor ela teria se no seu lugar fosse instalado o PMDB? Todas as certezas vão passar por uma prova. Como diz o poeta, segunda-feira ninguém sabe o que vai acontecer. Não me refiro apenas ao dia de amanhã, 16 de março. Se a crise se aprofundar, se as pessoas sacudirem a árvore com intensidade, eles acabam saltando por uma questão de sobrevivência. Aí, sim, nesse momento, será possivel falar de união nacional, de trazer as forças da sociedade para contribuir com a ideia de renovar.

Desde adolescente participo de manifestações. Aprendi a vê-las como algo não linear. Elas têm fluxo e refluxo, como o movimento da marés. Não salvaremos o país neste domingo. É só o começo de um novo processo. Será longo e difícil, porque a crise econômica vai roubar também muitos dos nossos sonhos. E não são apenas sonhos de consumo. Sonhos de crescimento, atualização, competividade profissional. Sacudir a árvore é um antídoto à ideia que as vezes nos assalta: meu país fracassou, logo também sou um fracasso.

Domingos são tranquilos e às vezes repetitivos. Desde a macarronada da infância ao futebol, os programas de auditório. Nos domingos, às vezes morremos, pelo menos esta é a sensação que a mesmice nos traz. O panelaço de domingo passado e as manifestações de hoje abrem uma nova fase. Não estamos em 2013. Naquela época, havia apenas uma sensação difusa de revolta contra todo o sistema político.

Nesse momento, as pessoas têm um foco. Sentiram-se enganadas na campanha. Exigem reparos. Estão conscientes de que a Petrobras foi assaltada: querem investigação e cadeia para os culpados. Em 2013, o objetivo parecia apenas exigir serviços públicos decentes em troca dos impostos. Agora o buraco é mais embaixo. Parece que as pessoas perceberam que isso só é possível com uma sacudida maior e focalizada. Não estamos em 2013 simplesmente porque a crise não nos deixará viver essa ilusão.

Não se trata apenas de desabafar num domingo tranquilo. Eles acreditam que esqueceremos tudo durante a semana. Sempre jogaram com o esquecimento. Mas a crise nos dará a memória de um elefante.

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