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segunda-feira, 16 de março de 2015

Viagem ao fim do mundo

Bruno Colli*
O ano de 1968 foi vital para uma mudança drástica no panorama político do Brasil: foi neste ano em que foi aprovado o AI-5, ato institucional proibicionista responsável pelas maiores atrocidades da ditadura militar. Cineastas, artistas, jornalistas, ativistas políticos da oposição e diversas figuras do meio cultural sofreram exílio, prisão, tortura e assassinato. Nessa época, diversos movimentos cinematográficos surgiram no país, como o Cinema Marginal e o Udigrudi / "boca do lixo", com o intuito de destruir as correntes impostas pela política vigente. Distanciando-se destes e estabelecendo suas próprias regras, Fernando Cony Campos realizou Viagem ao Fim do Mundo, com sequências levemente baseadas nas obras de Machado de Assis (Memórias Póstumas de Brás Cubas) e Simone Weil, a quem a obra é dedicada.

Ambientado quase que completamente dentro de um avião, Viagem ao Fim do Mundo não possui uma estrutura narrativa convencional; cada personagem parece viver em seu próprio universo, como se os outros passageiros do voo fizessem parte de seus universos particulares, que acabam interagindo entre si. Um jovem encantado com a garota propaganda que acabara de conhecer e interage com Pandora, personificação da natureza; um velho decrépito que tenta seduzir garotas mais jovens e não possui as melhores das intenções; uma freira que condena sua já abalada fé em Deus; jogadores de futebol cujos pensamentos beiram o existencialismo; uma personagem denominada dentro do próprio filme como "um erro de continuidade que só aparece nos planos ímpares", quebrando a quarta parede do filme; nada em comum liga os protagonistas do filme, mas todos estes são essenciais para que o filme se desenvolva ao explorar o que há dentro das mentes de cada um destes.

No decorrer da história, filmagens de tiranos como Hitler, Mussolini e Stalin intercalam-se a cenas de morte, destruição e uma clara alusão ao regime militar brasileiro, quase como uma previsão do que estaria por vir no decorrer dos anos. O mito da existência de Deus, os dogmas católicos e a hipocrisia religiosa são denunciados sem misericórdia pela freira, representação da filosofia de Weil no filme, como uma afronta aos pilares da igreja, sempre unida à política, especialmente num país onde a falta de fé ou religião é mal vista até os dias atuais. Viagem ao Fim do Mundo é uma produção rigorosamente experimental, ambiciosa e corajosa até seu último minuto, exemplar único de um cinema que infelizmente torna-se cada vez mais raro. 
*Crítico de cinema

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