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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Os BRICs e a nova Geopolítica Mundial

Marcos Troyjo*
Os Brics precisam relançar suas estratégias de crescimento, dando uma ênfase menor ao capitalismo de estado. Cabe mudar o DNA do modelo econômico das últimas décadas.
Na China, isso significou empresas exportadoras e uma obsessão na conquista de mercados externos. Na Rússia, a aposta numa economia em transição para setores intensivos em tecnologia. A Rússia tem os melhores padrões educacionais e o maior contingente de cientistas como percentual da população entre os Brics. Na Índia, a ênfase é a especialização naqueles setores em que os indianos dispõem de vantagens competitivas, como nas indústrias de TI, farmacêuticos e têxteis.
Já o modelo brasileiro está marcado pela presença maciça do governo na economia, numa reedição do padrão de substituição de importações. A economia do país é das mais fechadas do mundo.
Os Brics poderiam liderar o mundo com iniciativas de empreendedorismo mediante a criação de ambientes amigáveis aos negócios, regras do jogo bem estabelecidas e transparentes.
Se analisarmos os quatro países que perfazem o conceito original de Brics, veremos que a situação é paradoxal. A China é o mais fechado politicamente. Índia e Brasil são democracias, mas apresentam estruturas burocráticas asfixiantes, com classes políticas pouco funcionais. A Rússia parece intimidar o empreendedorismo pelas dificuldades na relação com autoridades governamentais, que mudam de humores na escolha de favoritos.
Essa renovação do DNA dos Brics é fundamental, pois hoje o significado de Brics muda em função do interlocutor. Estão se consolidando ao menos duas formas com que a comunidade internacional enxerga o grupo.
A primeira avalia o momento atual e perspectivas dos quatro gigantes (aqui sem África do Sul), como “mercados em crescimento”. Segue a análise do Goldman Sachs na década passada, que acentuava fatores territoriais, populacionais e de peso relativo dessas economias em suas respectivas regiões para delinear a futurologia da economia global.
A segunda concentra-se no impacto da construção institucional dos Brics (aqui com África do Sul) nas relações internacionais dos próximos 25 anos. Tal enfoque mede o impacto da articulação dos Brics em organizações multilaterais existentes, no surgimento de novos instrumentos plurilaterais, novas alianças e polos de poder.
Há certo desapontamento com a primeira. Nenhum dos Brics ostenta expansão do Produto Interno Bruto tão estonteante como na década passada. Campeões nas modalidades de capitalismo de Estado que adotaram, hoje veem-se confrontados com a urgência de agenda reformadora que, em sua natureza, é essencialmente liberal. Menor intervenção governamental, burocracia reduzida, flexibilização do mercado de trabalho, descentralização administrativa.
Dos quatro Brics, apenas a China envereda-se mais celeremente rumo a reformas. Teme-se, no entanto, que mudanças vislumbradas por Xi Jinping tropecem na informalidade do setor financeiro, no estoque de dívidas ruins e no conservadorismo da elite privilegiada pelo boom dos últimos 20 anos. Índia e Brasil parecem estar na divisão de águas no que toca a reformas modernizantes e na definição de caminhos estratégicos. E a Rússia ainda contabiliza perdas e ganhos da aventura na Crimeia e no imprevisível desfecho da crise ucraniana.
Para os Brics, o importante é que pontos em que há coincidência, como o financiamento do desenvolvimento e instrumentos mais modernos de governança econômica global, se sobreponham às diferentes agendas políticas. Com isso, os pilares de uma ordem global multipolar estarão fortalecidos.    Publicado no Jornal Estado de Minas – Caderno de Opinião
*Marcos Troyjo é diplomata, economista e cientista social, diretor do Briclab na Universidade Columbia, NY 

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