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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Um maestro polêmico e genial

Dudamel, um antimaestro
Por João Luiz Rosa - Valor Econômico - 16/12/2016
Aos 35 anos, Gustavo Dudamel é um dos mais respeitados maestros da atualidade, mas sua personalidade contrasta com o perfil do profissional autoritário, irascível e inflexível - o estereótipo de quem rege uma orquestra. Na verdade, é difícil escolher as palavras para definir sua abordagem sobre a música, e, em particular, a carreira que abraçou precocemente, desde a infância passada em Barquisimeto, uma das cidades mais antigas da Venezuela, a 350 quilômetros de Caracas.
"Gentil" talvez seja um termo aplicável, considerando sua infância. O pai era trombonista em uma banda de salsa; a mãe, professora de canto. "Na casa da minha avó Engracia, eu fechava a porta do quarto, enfileirava os soldados de brinquedo e colocava um dos discos de vinil do meu pai para tocar. Meus soldados viravam músicos, tocavam Beethoven, e ganhavam vida. Era mágico", diz o maestro ao Valor, em uma entrevista por e-mail.
Dudamel é certamente "ocupado". Regente e diretor musical da Orquestra Filarmônica de Los Angeles, a cada temporada ele passa cerca de 16 semanas na Califórnia e outras 20 em Caracas, onde ocupa cargos idênticos na Orquestra Sinfônica Simón Bolívar. "Viajar é parte do meu trabalho", afirma. Todos os anos, ele também rege, como convidado, as Filarmônicas de Berlim e Viena. É à frente dessa última que estará no dia 1º de janeiro, no tradicional concerto de Ano Novo realizado na capital da Aústria. Dudamel é embaixador da marca Rolex, de relógios de luxo, que patrocina tanto a Filarmônica de Viena como a deLos Angeles.
Com tantos compromissos, não sobra muito espaço na agenda, mas para o ano que vem Dudamel conseguiu tempo para algo novo. "Durante alguns meses, vou trabalhar em Paris, na Ópera da Bastilha, em uma nova produção de La Bohème [de Giacomo Puccini, 1858-1924]. Você não imagina o quanto estou ansioso para isso!".
"Polêmico" dificilmente seria um adjetivo apropriado para Dudamel. O maestro não fala de política. Por esse motivo, porém, já foi acusado de omissão por desafetos que cobram dele uma postura mais crítica em relação ao governo da Venezuela. É o caso da pianista Gabriela Montero, também venezuelana. No início de 2014, em um episódio ruidoso, ela publicou uma carta no Facebook na qual acusava Dudamel de conivência com o regime do presidente Nicolás Maduro. A reprovação se concentrava no fato de o maestro ter participado de um concerto em Caracas no mesmo dia em que três jovens foram mortos nas ruas em protestos contra Maduro.
O pano de fundo dessas críticas é El Sistema, um programa de formação musical destinado a crianças e adolescentes, fundado pelo músico venezuelano José Antonio Abreu, em 1975. Desde sua criação, El Sistema já atendeu 787 mil pessoas, segundo o site da instituição. Atualmente, reúne 1.681 orquestras e 1.389 coros distribuídos pelos 24 Estados da Venezuela.

Mathew Imaging/WireImage
Dudamel é o mais famoso egresso do Sistema, programa de formação musical destinado a crianças e adolescentes, e é diretor da Sinfônica Simón Bolívar, a joia da coroa
Dudamel assumiu a regência da Sinfônica Simón Bolívar, o principal grupo do Sistema, aos 18 anos. Ele é o mais famoso egresso do movimento que, após 40 anos, continua a despertar opiniões inflamadas. A experiência já recebeu o apoio entusiasmado da aristocracia da música de concerto, como os maestros Claudio Abbado, morto em 2014, e Simon Rattle, atual titular da Filarmônica de Berlim. Vez por outra, no entanto, enfrenta críticas demolidoras como a feita pelo jornal britânico "The Guardian", dois anos atrás, em um artigo intitulado "El Sistema: Um Modelo de Tirania?"
"Cauteloso" define o jeito como Dudamel avalia El Sistema. Em várias ocasiões, ele já disse que a iniciativa não tem caráter político. Quanto aos resultados, afirma, é uma avaliação em andamento. "Não medimos [o sucesso] em número de alunos educados, notas tocadas ou concertos assistidos. Está mais relacionado aos sorrisos e à felicidade que trazemos às vidas das pessoas por intermédio do que fazemos. É extremamente importante entender que provemos acesso de jovens às artes como um direito humano fundamental e a finalidade de nosso trabalho."
A questão da replicação do Sistema é importante, afirma o maestro. "Não acho que temos a solução perfeita na Venezuela, mas é uma saída que funciona em nossas condições locais, que são peculiares a nosso país e nosso povo." Outros projetos de que ele participa diretamente têm características diferentes. É o caso da Yola, a Orquestra Jovem de Los Angeles, que está completando 10 anos; o Sistema Suécia, em Hammarkullen, e o Big Noise, em Raploch, na Escócia.
"O importante é a abordagem e a maneira de aprender. Nosso ponto de partida é que a música é um bem social, um elemento básico na educação e no desenvolvimento da criança como cidadão responsável. Não se trata de aprender a tocar no Carnegie Hall, mas de disciplina, interação social, aprimorar habilidades mentais superiores etc."
O maestro, que já se apresentou no Brasil, conhece iniciativas locais que, à semelhança do Sistema, dão um tratamento social ao ensino da música. "Quando estive no país pela última vez visitei projetos em São Paulo e no Rio", além de Salvador e Paulínia (SP), conta.
Em uma de suas visitas, Dudamel assistiu a um concerto da Orquestra Sinfônica Heliópolis na Sala São Paulo, uma das principais salas de concerto do país. A Sinfônica Heliópolis é a parte mais visível um trabalho iniciado há 20 anos pelo Instituto Baccarelli. Regida pelo maestro Isaac Karabtchevsky desde 2011, conta atualmente com 65 músicos fixos. Outras quatro orquestras e 14 corais estão em atividade. Ao todo, cerca de 1,3 mil crianças e jovens participam das atividades por ano. A sede, que fica no bairro Heliópolis, em meio a uma das maiores favelas da cidade, já foi visitada mais de uma vez por Abreu, o criador de El Sistema. Os músicos recebem uma bolsa para estudar, além de auxílio financeiro para que possam se concentrar nos estudos.
Dudamel se mostra acessível em um meio conhecido pela vaidade intelectual e uma certa noção de exclusividade econômica e social. Ele aproveita a fama e o reconhecimento conquistados para combater a percepção de que as salas de concerto são um espaço restrito aos mais ricos ou mais velhos. É contra compartimentar gêneros musicais, quaisquer que sejam eles. "É um absurdo pensar que o jazz é apenas para pessoas de meia idade ou o pop para os jovens. Eu ouço de tudo!", afirma.
Como atrair, então, novas audiências para a música clássica? "Essa é uma boa pergunta", responde, "e eu estou tentando novas maneiras de fazer isso em Los Angeles. Nós quase lotamos todas as noites de nossa programação clássica no Hollywood Bowl neste verão." A cada concerto, conta o maestro, 18 mil pessoas se sentaram no anfiteatro ao ar livre, conhecido por seu formato de concha. "Foi uma sensação maravilhosa em um local lendário. Mas exige a responsabilidade de a geração adulta de se envolver com os jovens em todos os campos da arte. Precisamos assumir essa responsabilidade", diz.
Os cabelos encaracolados e o jeito informal são expressões físicas da revitalização que Dudamel trouxe à música erudita. Ele é "moderno", e não apenas à frente da orquestra. Usa a internet para quase tudo, de escutar música no tempo livre até examinar partituras e ouvir solistas. "Com meu MacBook, meu iPhone e meu iPad, sou destemido", brinca.
Também gosta de ir ao cinema, com o qual tem uma ligação especial. "Amo cinema. Se tenho algum tempo livre, é uma das minhas válvulas de escape favoritas, e frequentemente levo meu filho comigo."
No fim do ano passado, foi uma surpresa quando Dudamel apareceu no estúdio em Los Angeles onde estava sendo gravada a trilha sonora de "Star Wars: O Despertar da Força", o esperado sétimo episódio da série, que trouxe de volta às telas personagens como Han Solo e a princesa Leia. Levado em segredo até o local, ele regeu os temas de abertura e dos créditos finais do filme. Na época, disse ter achado que era uma brincadeira quando o compositor John Williams ligou para convidá-lo para a tarefa.
Williams, de 84 anos, é um recordista do Oscar. Com "O Despertar da Força", recebeu sua 50ª indicação ao prêmio. Já levou para casa cinco estatuetas, pelas trilhas sonoras de "Um Violinista no Telhado" (1971), "Tubarão" (1975), "Star Wars" (1977), "ET - O Extraterrestre" (1982) e "A Lista de Schindler" (1993).
Música feita para o cinema não costumava fazer parte do repertório de muitas orquestras, mas trabalhos de autores como Williams e o italiano Ennio Morricone romperam essa barreira. No Brasil, a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), com sede no Rio, já fez apresentações com temas de Williams. Dudamel, que é fã do compositor americano, também já o homenageou com um concerto pela Filarmônica de Los Angeles.
Mas a ligação de Dudamel com o cinema vai além da regência. Ele é compositor da trilha sonora de "Libertador" (2013), produção hispano-venezuelana falada em inglês. O protagonista, interpretado pelo ator Édgar Ramírez, é Simón Bolívar, um nome central nas guerras de independência movidas pelas antigas colônias americanas contra a Espanha no século XIX. A luta de Bolívar, que morreu aos 47 anos, resultou na independência de cinco países: Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia.
O diretor do filme, Alberto Arvelo, não era um estranho. Em 2006, ele já havia feito em 2006 o documentário "Tocar y Luchar", que conta a história do Sistema. Discreto, Dudamel diz ao Valor que a "composição é uma coisa muito especial". "Eu ainda componho muito em casa, mas, no momento, faço isso mais para mim mesmo, de maneira privada", afirma. "Algum dia, acho que vou voltar a escrever as partituras para algum outro filme. Eu só preciso da inspiração certa."
O flerte de Dudamel com o cinema mostra outra característica - o maestro é "pop". E tem senso de humor. Na segunda temporada de "Mozart in the Jungle", série premiada da Amazon, ele faz uma aparição como funcionário da Filarmônica de Los Angeles. Mas sua presença no seriado não é uma mera ponta de luxo, como fazem muitas produções da TV americana ao convidar atletas, cantores e outras celebridades para inflar a audiência. No próprio programa da Amazon já passaram o violinista americano Joshua Bell e o pianista chinês Lang Lang.
Um dos protagonistas de "Mozart in the Jungle", interpretado pelo ator mexicano Gael García Bernal, foi claramente inspirado em Dudamel. E as semelhanças não se restringem ao cabelo rebelde. Na série, Bernal - indicado nesta semana ao Globo de Ouro, prêmio que conquistou em 2016 pelo mesmo papel - dá vida ao maestro Rodrigo de Souza, regente mexicano considerado a próxima grande promessa da música erudita, como o próprio Dudamel quando despontou no cenário internacional. Cercado dos melhores antecedentes, ele é convidado a dirigir a fictícia Sinfônica de Nova York.
Os mais observadores vão perceber inúmeras semelhanças entre o currículo de Dudamel e o do personagem de Bernal, embora o enredo não esteja calcado na vida do maestro venezuelano. A trama está baseada no livro de memórias de Blair Tindall, uma ex-oboísta. Mas só de dar as caras na frente das câmeras, Dudamel mostra que leva sua autoimagem na esportiva.
Com tantas facetas, é impossível definir o maestro em poucas palavras. Talvez, a melhor definição seja a que ele atribuiu a si mesmo, três anos atrás, numa entrevista para a revista "1843", editada pelo mesmo grupo que publica "The Economist". Na conversa, o maestro diz se considerar um "Pangloss". É uma referência ao Dr. Pangloss, o mentor do protagonista de "Cândido, ou o Otimismo", a sátira publicada por Voltaire (1694-1778) em 1759. A doutrina do tutor pode ser resumida na frase "tudo é para o melhor neste melhor de todos os mundos possíveis", uma forma de pensar que guia Cândido a princípio, mas é abandonada à medida que o personagem se frustra com exemplos da maldade humana. Na música, a história influenciou o maestro americano Leonard Bernstein (1918-1990) a compor "Candide", uma opereta que estreou na Broadway em 1956.
"E o senhor continua a ser um 'Pangloss'?", pergunto.
"Oh, sim", responde o maestro. "Eu estava estudando e gastando muito tempo com 'Candide' na época da entrevista para a 'Economist'. É um trabalho filosófico maravilhoso, que eu revisito regularmente. É o conceito de Pangloss que eu acho tão interessante". E termina: "E você, o que acha?"

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